terça-feira, 9 de março de 2010

QUESTÃO DE GÊNERO

Sou filha caçula entre quatro irmãos, então, naturalmente, sou questionadora (segundo alguns psicanalistas). Pergunto muito, penso muito, não sou de falar muito, ouço mais e escrevo o que quero falar. Assim, fui criando minhas bandeiras, algumas lutas para ser ouvida e outras manias de gente caçula no meio de três personalidades tão fortes quanto as dos meus irmãos. Mas, o que podia ser problema para alguns, para mim foi muito positivo. Comecei cedo a questionar minha posição como mulher na sociedade o que me levou a precoce leitura de Simone de Beauvoir, Marta Suplicy, Rose Marie Muraro....Também levei adiante a busca por uma força que me desse um suporte espiritual. Tanto que minha corrida aconteceu o oposto da maioria das beatas. Cedo, ainda jovem e razoalvelmente bonita (para alguns) fui católica, seicho-no-, ayuasqueira (União do Vegetal), espírita e, hoje, minha fé internalizou, fiquei menos necessitada de sedes, núcleos, pólos, igrejas, etc... Agora, vivo o que acredito dentro de mim. Primeiro borboleta, "voando", "sentando" , hoje, casulo.
Ontem, fiquei receosa de receber algum comentário de "feliz dia internacional da mulher....". Por que vivo meu gênero também como casulo. Continuo no "processo" de expelir fio para continuar construindo a seda. (A verdadeira liberdade feminina). Não vejo ainda a mulher num firme alicerce de iqualdade entre os gêneros. Falta mais algumas décadas, principalmente, nós, brasileiras e ainda nortistas e nordestinas....
Ontem, peguei meu livro de Hazel Rowley, "Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre Tête-a Tête" e reli os textos diversas vezes sublinhados com marcadores e trago para esse espaço um desses textos. "A elegante e atraente Simone de Beauvoir, a embaixatriz do existencialismo nos Estados Unidos, conquistou os linguistas de Princeton ontem à tarde, enquanto os bombardeava com uma opinião não tão simpática aos que lhe ouviam. Dizia: Eu imaginava que as mulheres aqui me surpreenderiam com sua independência. Mulher Americana e Mulher Livre parecia-me expressões sinônimas. A princípio (...) seu modo de vestir me espantou com sua caracteristica flagrantemente feminina, quase sexual. Nas revistas feministas aqui, mais do que nas francesas, li longos artigos sobre a arte de caçar um marido e pegar um homem. Vi que as universitárias não se preocupam com quase nada, a não ser com homens, e que a mulher que não é casada é muito menos respeitada aquí do que na Europa (...).As relações entre os sexos são uma luta."
Nós, brasileiras, estamos bem perto da realidade das Norte-Americanas que a Simone sentiu na década de 50 a 60. Nossa relação com os homens ainda é uma luta, uma disputa, uma maratona a ser ganha. E a iqualdade não se chega por aí..... A igualdade é representada por semelhança de tratamento entre os gêneros, jamais uma guerra. Isso é Inquisição. Caça as bruxas. Também vejo a nossa nudez como uma agressão, um acinte. Não, decisivamente, para mim, ainda estamos distantes de termos o que festejar.

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