Estou reorganizando a bagunça do meu quarto "criativo". É nesse espaço, que crio, construo e descontruo teses de vida, leio e releio meus melhores livros, assisto e reassisto os grandes filmes que me "tocaram" tão profundamente que me fizeram deixar de ser o que pensava já ser. Foi assim que encontrei um artigo meu escrito em maio de 1983, Dia das Mães. Fiquei feliz por ainda ter o recorte de Jornal. Dois amigos de profissão, Paulo Queiroz e Martinez (já falecido), pediram que escrevesse algo para o Dia das Mães que não "tivesse o mofo dos já publicados" (palavras textuais deles, pois grampeei o bilhete ao Artigo que transcreverei abaixo pensando não ser tão distante do que preciso dizer a minha filha, Elza, já perto de ganhar o nosso mais novo membro da família: Arthur. Passo a transcrever: Nos meus tempos de faculdade tive que fazer um trabalho sobre "A Mulher Brasileira". Bem, note-se que, nessa época, eu vivia um intenso amor (noiva do meu atual marido) e tinha um trabalho gratificante. Casa para mim significava apenas o lugar onde se alimenta e depois dorme e nenhuma preocupação se empregada faltou, se a carne acabou, e etc... Some-se a isso nenhuma responsablidade com a maternidade. Então, agora, depois da caracterização do momento vivido até então, vocês já podem avaliar de antemão que na dissertação do artigo eu colocava a mulher como a heróina capaz de romper todas as barreirs e se tornar "aquela" mulher da novela das oito ou ainda a militante que fui pelos direitos feministas e até a própria Simone De Beauvoir na vida. Hoje, com três anos de casamento, um lindo e amado filho com cinco meses, marido e uma casa em que todas as obrigações provenientes dela, da casa, são minhas, volto a refletir sôbre a situação da "Mulher Brasileira". Agora, apesar de não ter compromisso com professores, faculdade, disciplinas, somente uma baita vontade de falar alguma coisa sobre mim e também à Você que está lendo esse artigo. Na ocasião do Artigo para a Faculdade eu dizia que o que faltava a nós, mulheres, era ter em mente um modelo, um objetivo e daí, partir para alcançá-lo. Pórem, hoje, igualmente como ontem não tinha os modos "como" lutar. Será que a mulher ter conseguido o seu espaço profissional, aquela que participa do orçamento doméstico nos dá algum mérito? É obvio que foi um grande passo nossas conquistas, mas ao mesmo tempo penso que nós tivéssemos lutado ou não, teríamos que assumí-la, pois essa situação de uma maneira ou outra, com a Revolução Industrial, teríamos que ir à luta mesmo. Foi uma imposição econômica que, imperiosamente, gerou esta mudança de costumes. E quem provocou essa situação senão o próprio homem? Afinal, eram eles os detentores do poder na epoca. Será que, com raríssimas exceções, continuamos apenas como operárias? Pergunto-me se trabalhando fora, falando em sexo tão mais abertamente do que nossas mães ousavam falar, ou lendo Marta Suplicy, Rose Marie Muraro, Simone de Beauvoir ou ainda estar podendo "falar" com vocês sobre esse tema através de um mass media, faz-me mais feliz do que a minha mãe, minhas avós o foram? Sinceramente, não sei não... Quanto mais penso, mais questões avoluman-se. Acho, que hoje temos mais papéis a desenvolver (profissional, dona de casa, mãe e etc...), mais preocupações de "ser" e a maior é a grande interrogação do que está "sendo". É claro que essa pode não ser o caso de algumas poucas mulheres, mas o é da maioria. Vimos o nosso mundo modificar como resposta a uma proposta "nossa". Passamos a usar expressões tão temas de antigas passeatas como "meu corpo me pertence"; "quero fazer o meu espaço"; "sou livre" e etc....) a grande preocupação de "ser", e a grande interrogação de o que está sendo. É claro que este pode não ser o caso de algumas mulheres, mas é o da maioria. Vimos o nosso mundo modificar todo como resposta a uma proposta a uma proposta nossa. Ficamos alegres e passsamos a usar expressões tão popularizadas como o "meu corpo me pertence", "quero conquistar o meu espaço", "sou livre" e etc... Toda essa modificação se deu, ao meu entender, de um modo superficial. Talvez tenhamos recebido essas modificações e as tejamos vivendo sem, no entanto, temos nos preparado internamente para assumir essas proposições que o mundo moderno nos ofereceu. Digo isso exemplificando. Há cinco cinco anos atrás, quando tive meu filho, ainda em recuperação de uma cesária (com um dia após de operação) chegaram com duas cintas e daquelas bem apertadas para que as usasse, senão o meu corpo iria ficar estegado, e o que mais tinha era mulher bonita querendo o marido das outras". Gente, quem falou isso foi uma mulher!!! Tudo o que eu queria era estar confortavelmente folgada e sem cintas, pensando apenas em sair daquele quarto horroroso que me angustiou tanto. Agora eu pergunto: o nosso corpo realmente nos pertence? Para que esse esse culto do corpo? Por que temos que ter como modelo a Bruna Lombardi, a Vera Fisher e, outra, se somos livres se nosso corpo nos pertence? Desculpem o pessimismo, mas às vezes tenho a angustiante sensação de estar sendo um intrumento de intenções unicamente machistas. Não, para mim terminantemente não bastam essas modificações para que eu possa dizer realmente mudaram em sua essência (verifique bem "em sua essência"). Talvez as coisas tenham modificado em suas bases em alguns países... Não posso falar, pois não tive a oportunidade de conhecê-los, mas no Brasil, acho, (bem pessoal) que somos a geração de transição para um modelo melhor, somos o alicerce de uma construção que nossas filhastratarão de dar continuidade. Ainda temos muitas angústias, muitos anseios e muito por quem lutar. Temos que repensar e modificar dentro, lá no fundo, modificar nossa cabeça e partirmos para aceitação dessas reformulações sociais e propostas feministas. Desculpem o pessimismo, porém é como eu sinto a coisa, e é como eu tento partir para alguma coisa. (Artigo postado no "ESTADÂO DO NORTE" em maio de 1983).
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