segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

EXISTÊNCIA GÊMEA

Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou:vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.Aceito os subterfúgios que me cabem,sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos— dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Adélia Prado - Com licença poética.
Por uns poucos dias que posso contar como anos, tive a sensação de ser só eu no mundo, eu e a dor do mundo, ai decidi fazer-me companhia com o que, para mim, restava-me: os meus sentidos. E aproveitei esses anos lendo, ouvindo, ouvindo, lendo.... Ficou isso do meu cárcere. Traduzo, muitas vezes, sentimentos vividos em um pedaço de recordação daquilo que li no exílio de mim mesmo, dos amigos, dos inimigos, dos conhecidos e desconhecidos.
Assim, empresto as palavras da Adélia Prado para homenagear uma amiga, que de tão amiga, nunca precisei pedir-lhe perdão do que fiz pois era em função do que passava ou explicar-lhe o que acontecia, pois também ou Ela estava cruzando ou já havia cruzado a mesma fase.
E, hoje, especialmente, faleceu esta amiga que tínhamos tanto uma da outra que cheguei a dizer a ela que nossas existências podiam dar-se como gémeas....
Nossas tristezas, que não tinham pedigree, eram sempre repisadas em nossas intermináveis conversas. Fisicamente tão diferentes, mas existências tão irmãs.
Ela, a minha existência gêmea, chamou-se Ivone, mais conhecida como Conselheira Ivone. E, assim, tão vazia de palavras, faço apenas o registro do falecimento da minha existência gêmea.
Justamente no Carnaval, momento em que afirmo nada importar.... Esse acontecimento abalou-me de maneira quase insuportável. Mas, como toda mulher, como nossa Adélia diz, somos desdobráveis, então, enxugo as lágrimas, arrumo a postura tão corcunda do peso da perda, ajeito minha dor - que não é amargura, e declaro: Estou de luto da minha existência gêmea. É só tudo.
Lúcia Barros.

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